Due diligence para captar: o checklist que o fundo vai cobrar

Due diligence para captar: o checklist que o fundo vai cobrar

Os FIDCs captaram R$ 30,6 bilhões líquidos no primeiro semestre de 2026, segundo o Acionista (15/10/2026). Esse dinheiro não chega a qualquer empresa. Chega a quem passa pela due diligence, o processo em que o fundo revira a sua empresa antes de assinar.

O significado de due diligence é “diligência devida”: a investigação que o comprador do risco faz antes de colocar dinheiro. Quem capta costuma ver isso como etapa burocrática. Eu trataria como a etapa que decide a rodada.

Por que a due diligence decide a captação

Em 3 de setembro, a CVM publicou o Ofício-Circular CVM/SNC/GNA 1/2026. Ele orienta os auditores de fundos a verificar a substância econômica das operações, o beneficiário final e a cadeia de controle. Brasil em Folhas e JusConsulta noticiaram em 09/10/2026.

Há ainda a Resolução CVM 247, que deu aos gestores de FIDC acesso ao SCR do Banco Central (JusConsulta, 10/10/2026). O SCR mostra o endividamento total do devedor. Aquela dívida que você não contou na reunião aparece na tela do gestor.

Na prática, o fundo chega com mais informação e com mais obrigação de checar. Quem entrega documentos desencontrados perde tempo, e às vezes perde a rodada. Para entender o desenho das regras de crédito, veja as novas regras de FIDC.

Due diligence não é auditoria: o que o fundo realmente verifica

A auditoria contábil responde se as demonstrações refletem a posição da empresa em uma data. A due diligence olha para frente e para os lados. Quer saber se o caixa se sustenta, se há contingência escondida e quem manda de fato na empresa.

Ela costuma ter várias frentes:

  • Financeira: qualidade dos números, caixa, dívida e projeções.
  • Jurídica: contratos, litígios, garantias e a documentação societária.
  • Fiscal e trabalhista: passivos que não estão no balanço.
  • ESG e compliance: políticas, canal de denúncia e riscos reputacionais.
  • Beneficiário final: quem são as pessoas físicas por trás da cadeia de controle.

Uma empresa pode ter balanço auditado limpo e ainda assim travar na due diligence jurídica por causa de um contrato de sócio mal registrado.

O que cada veículo pede

O fundo olha o que pode lhe causar prejuízo, e isso muda conforme o veículo.

FIDC e crédito estruturado pensam em recuperação. Pedem lastro dos recebíveis, garantias, concentração de sacados, histórico de inadimplência e o endividamento total, agora visível no SCR. Se 60% dos seus recebíveis vêm de dois clientes, o fundo vai precificar esse risco ou recusar.

PE e VC pensam em crescimento e saída. Pedem tese, margem, cap table limpo, unit economics e plano de uso do dinheiro. O sócio-fundador com 5% prometido em e-mail, sem contrato, assusta mais do que uma margem baixa.

A mesma empresa pode precisar de dois conjuntos de documentos. Montar um só e usar para todos costuma ser erro.

Checklist de governança e dados em 4 blocos

Este é o resumo do que o fundo costuma pedir. Para a estrutura da pasta digital, veja como montar o data room.

Bloco O que ter pronto
Financeiro Demonstrações auditadas dos últimos exercícios, balancetes mensais, conciliações bancárias, aging de recebíveis e contas a pagar, projeções com premissas escritas
Jurídico e societário Contrato social e alterações, cap table, acordos de sócios, contratos relevantes com clientes e fornecedores, lista de processos e garantias prestadas
Fiscal e trabalhista Certidões, parcelamentos, autos de infração, ações trabalhistas, regularidade de FGTS e encargos
Governança Conselho ou comitê, alçadas de aprovação, controles internos, política de compliance, mapa de beneficiário final

Uma regra que eu seguiria: cada número da projeção precisa ter uma planilha por trás, e cada planilha precisa bater com a contabilidade. Se o fundo encontra uma diferença de R$ 200 mil entre as duas, a pergunta seguinte já não é sobre os R$ 200 mil. É sobre o resto.

Qualidade dos lucros: ajustes de EBITDA que derrubam valuation e prazo

A análise de qualidade dos lucros (Quality of Earnings) separa o resultado que se repete do resultado de ocasião. O fundo refaz o seu EBITDA com a régua dele.

Os ajustes mais comuns:

  • venda de imobilizado ou receita pontual contabilizada como operacional;
  • despesas pontuais, como um acordo judicial, que o gestor pode aceitar somar de volta, se bem documentadas;
  • pró-labore dos sócios fora do preço de mercado;
  • receita antecipada ou reconhecida cedo demais;
  • despesas pessoais dos sócios pagas pela empresa.

Um exemplo hipotético, só para ilustrar. Uma empresa apresenta EBITDA de R$ 20 milhões. O fundo tira R$ 3 milhões de venda de um galpão, soma R$ 1 milhão de um acordo judicial único e subtrai R$ 1,2 milhão porque o pró-labore dos sócios está abaixo do mercado. O EBITDA ajustado fica em R$ 16,8 milhões.

Com um múltiplo ilustrativo de 6 vezes, o valor sai de R$ 120 milhões para R$ 100,8 milhões. São R$ 19,2 milhões a menos, sem nada ter mudado na operação. Se o ajuste aparece só durante a due diligence, a negociação trava. Se você o apresenta antes, com documentos, a conversa é outra. Para entender como o resultado vira preço, consulte os métodos de valuation.

Vendor due diligence: como se antecipar em 60 a 90 dias

A vendor due diligence é a due diligence preventiva: você contrata a análise antes de procurar fundos e chega com o relatório na mão. Dá para fazer, e eu recomendo para quem já levou um “não” por desorganização.

Um cronograma realista:

  1. Dias 1 a 15: diagnóstico. Liste o que o fundo pediria e marque o que falta.
  2. Dias 15 a 45: financeiro. Feche conciliações, revise o EBITDA e monte as projeções com premissas.
  3. Dias 45 a 70: jurídico, fiscal e trabalhista. Regularize o que for regularizável e documente o resto.
  4. Dias 70 a 90: monte o data room, revise com um olhar externo e ensaie as perguntas difíceis.

Quem faz: o time financeiro, o escritório jurídico e uma firma de auditoria ou consultoria independente para a parte de qualidade dos lucros. O custo depende do porte e do escopo, então peça proposta fechada antes de contratar. Eu não passaria um número genérico.

Erros que travam a rodada, e quando contratar assessoria

Os erros que mais travam, na nossa leitura:

  • projeção sem conexão com o histórico;
  • cap table desatualizado;
  • dívida omitida que aparece no SCR;
  • documentos entregues aos pedaços, em versões diferentes;
  • sócio que improvisa respostas sobre números que o CFO conhece.

Faz sentido contratar assessoria quando a empresa nunca passou por um processo desses, quando o time financeiro já está no limite com o fechamento do mês, ou quando você vai falar com mais de um tipo de veículo ao mesmo tempo.

Dúvidas frequentes

Quanto tempo dura e quanto custa uma due diligence?

Costuma levar de algumas semanas a dois meses, e a maior parte do atraso vem de documento faltando. O custo varia com o porte e o escopo. Em geral, quem organiza antes gasta menos tempo e dá menos margem para o fundo pedir desconto.

Qual a diferença entre due diligence e auditoria contábil?

A auditoria opina sobre as demonstrações financeiras. A due diligence investiga o negócio todo: números, contratos, passivos, governança e controle. Uma não substitui a outra.

O que acontece se o fundo achar inconsistência ou passivo?

Depende do tamanho. Pode virar ajuste de preço, garantia adicional, condição para fechar ou fim da conversa. Inconsistência que você mesmo revelou e documentou pesa menos do que a que o fundo descobre sozinho.

Posso fazer uma due diligence preventiva antes de procurar fundos?

Pode, e é a vendor due diligence descrita acima. Ela mostra o que o fundo vai achar, enquanto você ainda tem tempo de corrigir.

Se a sua empresa pretende ir ao mercado nos próximos seis meses, fale com a Lure Capital e peça um diagnóstico do que falta no seu data room. Começamos pelo checklist de 4 blocos e dizemos o que consertar primeiro.


Conheça a LURE CAPITAL.

Maicon Farina – Diretor de Capital