
A Selic está em 13,75% desde o corte de 16 de setembro, o quinto seguido. O Focus aponta 13,25% para o fim de 2026 e cerca de 12% para o fim de 2027. A Buysidebrazil baixou a projeção de 2027 para 11%. Do outro lado, o CFO da Friggi & Secco admite 13,5% a 14% se não houver ajuste fiscal (Meu Bolso Prático/BTG, 14/10; Investalk/Broadcast, 09/10; Fator Brasil, 14/10).
Quem fecha o orçamento de 2027 agora precisa escolher um número dentro dessa faixa. E a escolha mexe no ponto de equilíbrio financeiro, contábil e econômico da empresa, só que de forma desigual. Um deles reage pouco à Selic. Outro reage quatro vezes mais. Se você usa o errado, a meta mínima de faturamento do ano que vem nasce torta.
A conta abaixo roda o mesmo caso três vezes, com imposto sobre a venda, e depois refaz o resultado com a Selic em 11%, 12% e 14%.
Ponto de equilíbrio financeiro, contábil e econômico: a diferença em poucas linhas
O contábil responde quanto vender para a DRE fechar no zero. O financeiro responde quanto vender para o caixa não encolher: ele tira a depreciação, que não sai do bolso, e põe a amortização da dívida, que sai. O econômico pega o contábil e soma o lucro mínimo que o dinheiro investido na empresa deveria render.
| Ponto | O que entra nos custos a cobrir | O que sai | Use para |
|---|---|---|---|
| Contábil | Custos e despesas fixas, depreciação e juros | Amortização do principal | Ler o resultado da DRE |
| Financeiro | Custos fixos de caixa, juros e amortização do principal | Depreciação | Liquidez, caixa e negociação de crédito |
| Econômico | O mesmo do contábil, mais o lucro mínimo sobre o capital investido | Amortização do principal | Preço, investimento e expansão |
A fórmula é a mesma nos três: ponto de equilíbrio em reais = custos a cobrir ÷ margem de contribuição percentual. Em unidades, divide-se pela margem de contribuição unitária. Muda só o que você põe em “custos a cobrir”.
Se você ainda não montou a conta básica, o ponto de equilíbrio passo a passo está no blog. Aqui eu parto do princípio de que você sabe somar custo fixo e quer saber qual dos três números levar para a mesa de decisão.
Margem de contribuição com imposto: como calcular em 2026 e em 2027
Metade dos erros de ponto de equilíbrio nasce aqui. A margem de contribuição é o que sobra de cada venda depois de pagar o que varia com ela: custo da mercadoria, frete, comissão e o imposto que incide sobre a nota. Esquecer o imposto é o erro mais comum.
Para calcular a margem de contribuição por unidade, use: preço − tributos sobre a venda − custos variáveis. Imagine uma distribuidora com preço de R$ 200 por unidade, custo variável de R$ 90 e ICMS de 12%. Em 2026, some PIS/Cofins de 9,25%. Em 2027, a CBS entra no lugar do PIS/Cofins. Como a pauta do Valor Econômico (19/10) lembra, a reforma tributária “não pode ser esquecida” no orçamento 2027, justamente porque a troca acontece na virada do ano.
| Por unidade | 2026 (PIS/Cofins) | 2027 (CBS) |
|---|---|---|
| Preço de venda | R$ 200,00 | R$ 200,00 |
| PIS/Cofins 9,25% | R$ 18,50 | |
| CBS 8,8% (premissa ilustrativa) | R$ 17,60 | |
| ICMS 12% | R$ 24,00 | R$ 24,00 |
| Custo variável | R$ 90,00 | R$ 90,00 |
| Margem de contribuição | R$ 67,50 | R$ 68,40 |
| Margem de contribuição % | 33,75% | 34,20% |
Duas ressalvas. A alíquota de 8,8% é uma premissa para a simulação: troque pela que o seu contador confirmar. E tratei os percentuais como carga já líquida de créditos, para não complicar o exemplo. Na vida real, a CBS dá crédito sobre as compras, então o custo variável de R$ 90 também precisa ser revisto. O que não dá é rodar o orçamento de 2027 com a margem de 2026.
Esquecer o imposto custa caro. Sem ele, a margem pareceria R$ 110, ou 55%. Os custos fixos de R$ 420.000 que você vai ver abaixo dariam um equilíbrio de R$ 763.636 por mês, quando a conta certa dá R$ 1.244.444. Uma diferença de quase meio milhão de reais por mês em faturamento.
Ponto de equilíbrio financeiro, exemplo numérico: o mesmo caso, três resultados
Os dados abaixo são hipotéticos, de uma distribuidora de médio porte. Não é cliente nem caso real.
| Dado mensal | Valor |
|---|---|
| Margem de contribuição | 33,75% (R$ 67,50 por unidade) |
| Custos e despesas fixas de caixa (folha, aluguel, sistemas, etc.) | R$ 360.000 |
| Depreciação | R$ 40.000 |
| Dívida: saldo de R$ 2 milhões, pós-fixada a 12% ao ano | Juros de R$ 20.000 |
| Amortização do principal | R$ 50.000 |
| Capital próprio investido | R$ 6 milhões |
| Retorno mínimo do capital próprio (Selic de 12%) | R$ 60.000 por mês |
| Faturamento atual | R$ 1.400.000 (7.000 unidades) |
Mantive o saldo da dívida em R$ 2 milhões para simplificar a simulação.
Contábil
Custos a cobrir: R$ 360.000 + R$ 40.000 + R$ 20.000 = R$ 420.000.
Ponto de equilíbrio contábil = 420.000 ÷ 0,3375 = R$ 1.244.444 por mês, ou 6.223 unidades.
Financeiro, e por que a depreciação sai
Custos a cobrir: R$ 360.000 + R$ 20.000 de juros + R$ 50.000 de amortização = R$ 430.000.
Ponto de equilíbrio financeiro = 430.000 ÷ 0,3375 = R$ 1.274.074 por mês, ou 6.371 unidades.
A depreciação sai porque é uma despesa de papel. A máquina ou o veículo já foi pago, à vista ou em parcelas, e o desembolso de caixa aparece em outro lugar. Se o bem foi financiado, a parcela entra pela amortização. Se foi pago à vista, o caixa já saiu antes. Contar a depreciação de novo no financeiro seria cobrar duas vezes pelo mesmo bem. Já a amortização do principal entra porque ela sai do caixa todo mês e não aparece na DRE.
Econômico
Custos a cobrir: R$ 420.000 (os do contábil) + R$ 60.000 de lucro mínimo = R$ 480.000.
Ponto de equilíbrio econômico = 480.000 ÷ 0,3375 = R$ 1.422.222 por mês, ou 7.112 unidades.
O lucro mínimo vem de R$ 6 milhões × 12% ÷ 12 meses. Usei a Selic como piso do que o sócio aceitaria receber, porque é o que ele ganharia aplicando o dinheiro em título público, sem tocar na empresa.
O que os três dizem sobre quem vende R$ 1,4 milhão
Com R$ 1.400.000 por mês, a empresa tem lucro contábil de R$ 52.500 (7.000 × R$ 67,50 = R$ 472.500, menos R$ 420.000). O caixa sobra R$ 42.500 depois de juros e amortização. A DRE sorri, o caixa respira. Mas o econômico não fecha: faltam R$ 22.222 de faturamento por mês para o sócio ganhar o que ganharia sem trabalhar. A empresa dá lucro e, ainda assim, destrói valor.
Qual dos três a empresa deve usar
Minha posição: não existe “o” ponto de equilíbrio. Existe o certo para cada decisão.
Use o financeiro para liquidez, caixa e crédito. Ele é a meta mínima de faturamento do mês, porque abaixo dele a empresa consome caixa mesmo mostrando lucro. Use o contábil para ler resultado e conversar com o contador, sabendo que sozinho ele é o mais enganoso dos três. Use o econômico para precificar, avaliar investimento e decidir se uma expansão se paga.
O econômico não garante lucro real ao empresário. Ele só diz qual faturamento remunera o capital pelo mínimo que você definiu. No exemplo, no ponto de R$ 1.422.222 o lucro contábil é de R$ 60.000, mas o caixa livre depois de juros e amortização é de R$ 50.000. O cálculo também depende de preço, mix e custos que variam. E a Selic é um piso: quem corre risco de empresa normalmente quer um prêmio acima dela. Se o prêmio não for cobrado, o dono recebeu o que um título público pagaria, com muito mais trabalho.
O efeito da Selic no ponto de equilíbrio econômico
Refiz o cálculo com a Selic em 11% (projeção da Buysidebrazil para 2027), 12% (Focus para o fim de 2027) e 14% (teto admitido pelo CFO da Friggi & Secco sem ajuste fiscal). A dívida acompanha a Selic, sem spread, e o sócio exige o mesmo percentual sobre os R$ 6 milhões.
| Selic | Juros da dívida por mês | Lucro mínimo por mês | Contábil | Financeiro | Econômico |
|---|---|---|---|---|---|
| 11% | R$ 18.333 | R$ 55.000 | R$ 1.239.506 | R$ 1.269.136 | R$ 1.402.469 |
| 12% | R$ 20.000 | R$ 60.000 | R$ 1.244.444 | R$ 1.274.074 | R$ 1.422.222 |
| 14% | R$ 23.333 | R$ 70.000 | R$ 1.254.321 | R$ 1.283.951 | R$ 1.461.728 |
De 11% para 14%, o contábil sobe R$ 14.815 por mês. O econômico sobe R$ 59.259, quatro vezes mais, ou cerca de R$ 711 mil por ano de faturamento adicional. A Selic de hoje, 13,75%, está colada no cenário de 14%.
A razão é que o juro que a empresa paga é pequeno perto do que ela deixa de ganhar por ter R$ 6 milhões parados no negócio. A dívida pesa R$ 2 milhões e aparece na DRE. O capital próprio pesa três vezes mais e não aparece em lugar nenhum, só no econômico.
Capital próprio contra dívida
| Selic em 12% | Contábil | Financeiro | Econômico |
|---|---|---|---|
| R$ 2 milhões de dívida e R$ 6 milhões de capital próprio | R$ 1.244.444 | R$ 1.274.074 | R$ 1.422.222 |
| R$ 8 milhões só de capital próprio | R$ 1.185.185 | R$ 1.066.667 | R$ 1.422.222 |
O econômico é o mesmo, porque o custo do dinheiro é o mesmo. O que muda é o alarme. Sem dívida, o financeiro cai para R$ 1,07 milhão e a empresa parece folgada. O custo do capital continua lá, mas ninguém recebe boleto. Nessa conta, cada ponto percentual de Selic custa R$ 14.815 de faturamento por mês sobre o capital próprio de R$ 6 milhões, e R$ 4.938 sobre a dívida de R$ 2 milhões.
Na prática o custo da dívida costuma vir com spread, e o prêmio de risco do sócio é maior que zero. Os números reais serão piores que os da tabela.
Planilha de 3 cenários no Excel e como levar ao orçamento 2027
Quem procura o ponto de equilíbrio financeiro no Excel quer uma planilha única que rode os três lado a lado. A estrutura é esta. Coloque as premissas na coluna B e os três cenários nas colunas D, E e F.
| Linha | Item | Fórmula |
|---|---|---|
| 2 | Preço de venda | Digitado |
| 3 | Custo variável unitário | Digitado |
| 4 | Tributos sobre a venda (%) | Digitado (troque para CBS em 2027) |
| 5 | Margem de contribuição unitária | =B2-B2*B4-B3 |
| 6 | Margem de contribuição (%) | =B5/B2 |
| 7 | Custos fixos de caixa | Digitado |
| 8 | Depreciação | Digitado |
| 9 | Juros da dívida | Digitado, ou =saldo*Selic/12 |
| 10 | Amortização do principal | Digitado |
| 11 | Capital próprio | Digitado |
| 12 | Retorno mínimo exigido (% ao ano) | Digitado |
| 13 | Lucro mínimo mensal | =B11*B12/12 |
Nas colunas de cenário, o que muda é a soma da linha “custos a cobrir”:
| Linha | Item | D: Contábil | E: Financeiro | F: Econômico |
|---|---|---|---|---|
| 15 | Custos a cobrir | =B7+B8+B9 | =B7+B9+B10 | =B7+B8+B9+B13 |
| 16 | Ponto de equilíbrio em R$ | =D15/B6 | =E15/B6 | =F15/B6 |
| 17 | Ponto de equilíbrio em unidades | =D15/B5 | =E15/B5 | =F15/B5 |
| 18 | Margem de segurança | =(fat.-D16)/fat. | =(fat.-E16)/fat. | =(fat.-F16)/fat. |
Para a margem de segurança, “fat.” é o faturamento previsto do mês. Para rodar Selic de 11%, 12% e 14% sem refazer a conta, duplique a aba e mude só as células B9 e B12.
Do equilíbrio ao orçamento
O financeiro vira a meta mínima mensal de faturamento na planilha de orçamento 2027. Ajuste mês a mês, porque a parcela da dívida e a sazonalidade da folha não são iguais todos os meses. Depois use as quatro faixas como gatilho de alerta no acompanhamento de desvios:
- Abaixo do contábil (R$ 1.244.444 no exemplo): prejuízo na DRE.
- Entre o contábil e o financeiro: lucro no papel, caixa encolhendo.
- Entre o financeiro e o econômico: lucro e caixa positivos, mas o capital rende menos que o mínimo.
- Acima do econômico: a empresa cria valor.
Se o faturamento acumulado do mês estiver abaixo da faixa do financeiro na metade do período, o alerta dispara antes do fechamento.
O que levar para a negociação de crédito
Antes de assinar dívida nova, rode o financeiro com a parcela. Como cada real de parcela precisa ser coberto pela margem de contribuição, uma parcela nova de R$ 10 mil por mês pede R$ 29.630 a mais de faturamento (10.000 ÷ 0,3375). Um ponto de spread sobre R$ 2 milhões custa R$ 4.938 de faturamento por mês. Chegar ao banco com esses números muda a conversa: você negocia prazo e carência sabendo quanto vender para pagá-los.
Erros comuns e quando chamar apoio externo
- Ratear custo fixo por igual entre produtos de margens diferentes. O ponto de equilíbrio de uma empresa com mix varia conforme o que se vende. Use a margem média ponderada.
- Tirar a depreciação do contábil ou esquecê-la no econômico. Ela sinaliza a reposição de máquinas e veículos que um dia vai custar caixa.
- Esquecer a amortização do principal no financeiro. É o erro que faz o caixa quebrar com a DRE no azul.
- Colocar comissão, frete e tributos como custo fixo. Eles variam com a venda e pertencem à margem de contribuição.
- Usar a margem de 2026 depois da CBS. Os créditos mudam o custo variável, e a margem muda junto.
Quando o mix tem dezenas de itens, a sazonalidade é forte, há dívida pós-fixada relevante ou a troca de PIS/Cofins por CBS mexe nos créditos da sua compra, o cálculo deixa de caber numa planilha de uma aba. É a hora de ter ajuda de fora.
Se você está fechando o orçamento de 2027 e não sabe qual dos três números colocar como meta mínima de faturamento, chame a gente no WhatsApp com a sua DRE e o fluxo de caixa dos últimos 12 meses. A Lure mostra por onde começar.
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Júlio Manfrini – Diretor de Controladoria e Automações IA

