
Sua empresa fatura R$ 30 milhões, mas no fim do ano sobra pouco. Aí um fundo manda mensagem, ou o sócio que você procurava pergunta o preço, e você não sabe o que responder. Dizer “R$ 30 milhões” é a forma mais rápida de perder a primeira reunião.
Comprador existe. O Valor publicou em 22 de outubro que as fusões e aquisições no Brasil somaram US$ 39,5 bilhões até 1º de outubro, alta de 16,4% sobre 2025, sustentada por capital estrangeiro. O banqueiro Alessandro Farkuh, ouvido na reportagem, diz que “os múltiplos estão muito comprimidos”. Na prática: tem gente comprando, mas pagando pouco. Quem chega sem a conta pronta aceita o desconto que vier.
Do outro lado, o banco está caro. O Banco Central apontou taxa média de 25,4% ao ano no crédito livre para empresas em julho. Com esse custo, vender uma fatia ou trazer um sócio vira alternativa real de caixa. E para negociar isso você precisa de um preço na mão.
Quanto vale minha empresa pelo faturamento? A conta rápida (e por que ela engana)
A conta rápida é multiplicar o faturamento anual por um fator. Como faixa ilustrativa, que muda por setor e porte e não vem de tabela oficial, use de 0,5 a 1 vez o faturamento.
Para uma empresa de R$ 30 milhões por ano, isso dá de R$ 15 milhões a R$ 30 milhões. É a resposta que quem busca “quanto vale minha empresa cálculo” costuma encontrar nas calculadoras da internet. Roteiros de autoavaliação, como os que o Sebrae e outras entidades oferecem, também ajudam a organizar os números.
O problema é que faturamento não paga boleto. Duas empresas de R$ 30 milhões podem ter uma com 15% de margem e outra no zero a zero. Pelo faturamento, valem o mesmo. Para quem vai comprar, nem de longe.
Use essa conta como teto da conversa, nunca como preço.
Por que o investidor ignora seu faturamento e olha o lucro
O investidor quer saber quanto a empresa gera de caixa operacional. Ele usa o EBITDA, que é o lucro antes de juros, impostos e depreciação. Depois aplica um múltiplo, que é quantas vezes esse lucro ele aceita pagar.
Imagine, como hipótese, uma empresa com R$ 30 milhões de faturamento e EBITDA de 10%, ou seja, R$ 3 milhões. Com múltiplo ilustrativo de 4 a 5 vezes, o valor da empresa fica entre R$ 12 milhões e R$ 15 milhões.
A mesma empresa vale R$ 30 milhões numa conta e R$ 12 milhões na outra. Essa distância é exatamente o que o fundo vai apontar na mesa. Quem entra sabendo explicá-la negocia. Quem não sabe, concede.
Existem outras formas de avaliar, como fluxo de caixa descontado. Se quiser ver cada uma, os métodos de valuation explicados estão em outro guia. Para decidir se vale ouvir uma proposta, o EBITDA já basta.
Minha empresa fatura bem mas lucra pouco: quanto ela vale?
Antes de aceitar que o lucro é pequeno, limpe o número. O investidor faz isso, e você deve fazer primeiro. Ele refaz o resultado tirando o que não é do negócio. É o EBITDA ajustado.
Os ajustes mais comuns:
- Pró-labore acima ou abaixo do que se pagaria a um executivo contratado.
- Despesas pessoais dos sócios que passam pela empresa, como carro, viagens e plano de saúde da família.
- Aluguel de imóvel do dono cobrado fora do preço de mercado.
- Gastos que não se repetem, como uma indenização, uma reforma ou a mudança de sistema.
Cada real de despesa que sai do cálculo e que o comprador aceita como pontual sobe o EBITDA, e o valor sobe junto com o múltiplo. O inverso também vale: se o dono ganha pouco demais, o comprador vai acrescentar um salário de mercado.
Se mesmo depois de limpar o EBITDA fica perto de zero, seja honesto consigo. O comprador pagará pelos ativos, pela carteira de clientes ou pela promessa de que a margem melhora, e o preço vem bem abaixo do que o faturamento sugere. Nesse caso, o primeiro trabalho é a margem, não a venda.
O que desconta do preço: dívida, passivo trabalhista e imposto atrasado
O valor pelo EBITDA é o valor da empresa, o que o mercado chama de EV. Ele não é o que vai para o seu bolso. Do EV sai a dívida líquida, que é a dívida menos o caixa, e saem os passivos: ações trabalhistas, imposto atrasado, parcelamentos.
| Item (exemplo hipotético) | Faixa baixa | Faixa alta |
|---|---|---|
| Valor da empresa pelo EBITDA | R$ 12,0 mi | R$ 15,0 mi |
| Dívida líquida | R$ 4,0 mi | R$ 4,0 mi |
| Passivo trabalhista | R$ 0,5 mi | R$ 0,5 mi |
| Valor para o dono | R$ 7,5 mi | R$ 10,5 mi |
Os R$ 30 milhões do começo viraram algo entre R$ 7,5 milhões e R$ 10,5 milhões. Dói, mas é essa a conta que o fundo vai fazer. E o que não aparece no balanço, como uma reclamação trabalhista não provisionada ou uma guia de imposto parcelada, ele descobre na análise e desconta com sobra.
Simples, Lucro Presumido ou Real: muda o valor?
Muda de forma indireta. O regime define quanto imposto a empresa paga e, portanto, quanto sobra de lucro. O comprador não paga a mais por um regime específico. Ele olha o resultado depois do imposto e se a empresa está enquadrada corretamente.
Uma empresa que fatura R$ 30 milhões já passou do teto do Simples, que é de R$ 4,8 milhões por ano. Se ainda está lá, o risco é o próprio enquadramento, e o investidor vai cobrar esse risco no preço. Não prometo percentual de ganho por trocar de regime. Peça ao seu contador uma simulação do resultado nos regimes possíveis antes de qualquer conversa.
Qual o preço de uma fatia: quanto vale 20% da minha empresa?
A conta é direta: 20% do valor para o dono. No exemplo, de R$ 1,5 milhão a R$ 2,1 milhões. Um detalhe que muda a história: se o fundo coloca dinheiro novo dentro da empresa, esse dinheiro entra no caixa e o preço da fatia é calculado de outro jeito. Peça sempre que a proposta separe o que é aporte do que é compra de sócio.
Agora a decisão. Suponha que, em 12 a 18 meses, a margem suba de 10% para 13% e a dívida continue igual. O EBITDA vai a R$ 3,9 milhões. A 4 a 5 vezes, o valor da empresa fica entre R$ 15,6 milhões e R$ 19,5 milhões, e o valor para o dono entre R$ 11,1 milhões e R$ 15 milhões. Três pontos de margem somaram de R$ 3,6 milhões a R$ 4,5 milhões ao seu bolso. A fatia de 20% passaria a valer de R$ 2,2 milhões a R$ 3 milhões.
O que a Lure faria: se o caixa aperta agora e a margem não vai mudar em um ano, a venda da fatia pode ser a saída. Se você tem ações sob o seu controle que levam a margem para cima, como preço, compras ou corte de desperdício, espere. Vender hoje com margem baixa é vender barato. Também vale comparar a venda de participação com outras fontes e, para isso, ajuda escolher a rota de captação com os números na mesa.
Quatro dúvidas que o dono sempre tem
Qual a porcentagem do faturamento que define o valor da empresa? Não existe uma. A faixa de 0,5 a 1 vez o faturamento é só ponto de partida e varia por setor, margem e porte.
Uma empresa que fatura R$ 100 mil por mês vale quanto? São R$ 1,2 milhão por ano. Na faixa ilustrativa, de R$ 600 mil a R$ 1,2 milhão antes de dívidas. Se a margem for baixa, abaixo disso.
Qual a diferença entre calcular por faturamento e por lucro? O faturamento mostra o tamanho. O lucro mostra o que o negócio devolve a quem compra. O investidor paga pelo segundo.
Como calcular o valor de uma empresa sem balanço auditado? Monte um resultado gerencial dos últimos 24 a 36 meses e peça ao contador que confira com as declarações de imposto e os extratos. Não precisa de auditoria para fazer a conta. O fundo vai auditar depois.
Baixe a planilha e faça a conta da sua empresa
A planilha “Quanto vale minha empresa” tem três blocos. Preencha na ordem:
- Valor pelo faturamento: coloque o faturamento dos últimos 12 meses e veja as faixas baixa, média e alta.
- Valor pelo EBITDA: lance o resultado operacional, faça os ajustes do dono e dos itens pontuais e aplique o múltiplo.
- Da empresa para o sócio: subtraia dívida líquida e passivos do valor da empresa e calcule o valor da fatia que você pretende vender.
Com o número pronto, o próximo passo é o que o fundo pede depois. Ele vai cobrar documentos, contratos e certidões, e quanto mais organizado você chegar, menor o desconto. Veja o checklist que o fundo vai cobrar e entenda como montar o data room antes da primeira reunião.
Se você tem o número e uma proposta na mão e quer saber se o preço é justo, a Lure Capital mostra como fazer essa conta e negociar a sua fatia sem aceitar desconto à toa.
Maicon Farina – Diretor de Capital

