Tem um canto do depósito que todo mundo conhece e ninguém comenta. Caixas de uma compra feita na promoção do fornecedor, uma linha que saiu de moda, peças de uma máquina que a empresa nem tem mais. Você passa por ali, sabe que tem dinheiro parado, e na reunião de sócios o assunto nunca entra.
Ele só reaparece no balanço, como “estoque”. Aí já é tarde para fazer outra coisa além de assumir o prejuízo.
A pergunta do dono é direta: quanto isso me custa por mês? E vem outra, mais incômoda: quem decide o que fazer com isso?
Quanto do seu estoque está parado e ninguém olha
O estudo anual do ILOS, instituto de logística e supply chain, estima o custo logístico do Brasil em R$ 2,2 trilhões em 2026, ou 16,1% do PIB. Em 2025 eram 15,5%. Esse custo inclui transporte, armazenagem e estoques, e as empresas ouvidas esperam novos aumentos em 2027. Ou seja: guardar mercadoria está ficando mais caro, e o canto do depósito paga essa conta junto.
Antes de calcular, defina “parado”. Aqui, é todo item sem nenhuma saída há mais de 90 dias. Se o seu negócio gira devagar por natureza, aumente o prazo. Se vende perecível, reduza. O que importa é ter uma linha de corte escrita.
Para achar a lista, peça ao sistema (ou ao Excel) a data da última saída de cada item e filtre quem passou de 90 dias. Some o valor de custo. Esse é o seu ponto de partida.
Como calcular o custo do estoque parado, passo a passo
A fórmula cabe em uma linha:
Custo mensal = valor parado × (taxa de capital + armazenagem e seguro + perda)
Todas as taxas ao mês. Se a sua taxa vem ao ano, divida por 12 antes de somar.
Imagine uma empresa média, hipotética, com R$ 1,5 milhão em estoque. Desse total, R$ 400 mil estão parados há mais de 90 dias.
| Componente | Taxa ao mês | O que cobre |
|---|---|---|
| Custo do dinheiro | 1,5% | o juro que o caixa preso custa ou deixa de render |
| Armazenagem e seguro | 0,5% | espaço, energia, vigilância, apólice |
| Perda | 0,5% | validade vencida, avaria, produto que ficou obsoleto |
| Total | 2,5% |
R$ 400 mil × 2,5% = R$ 10 mil por mês. São R$ 120 mil por ano só para guardar o que não vende.
Esses números são um exemplo ilustrativo. Troque as taxas pelas suas. Para o custo do dinheiro, use o juro do seu empréstimo mais caro ou, se você tem sobra de caixa, o que ela renderia aplicada. Esse é o custo de oportunidade do capital imobilizado, e é o item que o dono mais esquece. Quem quer ver o efeito dele no caixa pode ler sobre capital de giro preso em estoque.
A taxa de perda muda conforme o setor. No comércio de moda e eletrônicos, pesa a obsolescência. Em alimentos e insumos agrícolas, pesa a validade. Na indústria, pesam peças e matéria-prima de produto descontinuado. Na distribuição, o que sobe é a armazenagem, porque o espaço custa. Ajuste a linha de perda para o que acontece de verdade no seu depósito.
Estoque parado é o mesmo que estoque de segurança?
Não. A diferença cabe em cinco linhas:
- Estoque de segurança é a quantidade mínima que evita a falta enquanto o fornecedor entrega.
- Estoque parado é o que está sem saída há mais de 90 dias, sem motivo definido.
- O de segurança gira devagar, mas gira. O parado não gira.
- O de segurança se justifica quando o item é crítico, o prazo do fornecedor é longo ou a falta para a produção.
- O parado só se justifica com venda futura marcada, como um pedido ou uma sazonalidade conhecida. Sem isso, é encalhe.
Por que o estoque encalha se você compra com cuidado
Porque cuidado na hora de comprar não é regra. Na maioria das empresas médias, o encalhe vem de quatro falhas:
- A compra não tem regra de reposição. O comprador decide pelo feeling ou pelo desconto do fornecedor.
- Ninguém é dono do item parado. Compras acha que é problema de vendas, vendas acha que é do financeiro, e o financeiro só vê no balanço.
- Ninguém olha o relatório de giro, que mostra quantas vezes o estoque se renova num período.
- Venda e compra não conversam. O comercial promete uma campanha que não sai, e a compra já fechou o pedido.
Isso é problema de rotina, não de depósito. Quem quer arrumar a raiz precisa começar pelas regras de compra e suprimentos.
E a conta anda enquanto ninguém decide. No exemplo acima, cada mês de atraso custa R$ 10 mil.
O que fazer com cada item parado
Decida item a item, nesta ordem de tentativa:
- Promover. Vale quando o item ainda tem comprador a um preço menor. Faça a conta: a 2,5% ao mês, em seis meses de espera 15% do valor do item já foi embora em custo. Um desconto de 15% hoje costuma sair mais barato que esperar. No caixa, o dinheiro volta agora.
- Devolver ao fornecedor. Vale quando o contrato ou a relação permite troca ou crédito. No caixa, volta como crédito ou dinheiro, em geral com algum desconto.
- Doar. Vale para item em bom estado sem mercado. O caixa não recebe nada, mas o custo mensal acaba. Confirme com o contador o tratamento fiscal.
- Reaproveitar. Brinde, kit, matéria-prima de outro produto. Só entra se alguém tiver um uso concreto e prazo para usar.
- Descartar. Para o que venceu, quebrou ou ficou sem comprador. A perda já aconteceu quando você comprou. Descartar só para de somar armazenagem em cima dela.
A nossa posição é simples: o pior item da lista é o que fica sem decisão.
Como evitar que volte a encalhar sem comprar sistema
Controlar estoque sem sistema é possível, desde que a planilha tenha dono. O mínimo que funciona:
- Uma planilha com saldo, valor, data da última saída e dias sem giro de cada item.
- Uma pessoa responsável pela lista, com nome e prazo.
- Uma regra de compra com mínimo e máximo por item. Compra ao chegar no mínimo, até o máximo. Acima disso, só com aprovação do sócio.
- Uma curva ABC, que separa os itens por valor. Os A, poucos itens que concentram a maior parte do dinheiro, entram na revisão todo mês. Os C podem esperar o trimestre.
Se a base ainda está bagunçada, comece por como organizar o estoque.
Depois, uma reunião mensal de 30 minutos:
- Minutos 0 a 5: o responsável mostra o valor total parado e a diferença para o mês passado.
- Minutos 5 a 20: os itens que passaram dos 90 dias neste mês. Para cada um, uma decisão (promover, devolver, doar, reaproveitar ou descartar), um responsável e um prazo.
- Minutos 20 a 25: as decisões do mês anterior. O que venceu o prazo e não foi feito volta para a mesa.
- Minutos 25 a 30: os pedidos de compra do mês que estouram o máximo.
Perguntas rápidas
Qual é a fórmula do custo do estoque parado? Valor parado × (taxa de capital + armazenagem e seguro + perda), com as taxas ao mês.
Quanto custa manter estoque parado por mês? Depende das suas taxas. No exemplo, 2,5% ao mês sobre R$ 400 mil, ou R$ 10 mil.
Como calcular o custo de oportunidade do capital? Use o que o dinheiro faria em outro lugar: o juro que você paga ou o rendimento que deixa de ter.
E a diferença para o estoque de segurança? Está na seção acima: o de segurança tem motivo e dono, o parado não tem.
Baixe a planilha e feche a sua conta hoje
A planilha “Custo do estoque parado” tem três blocos: a conta, a lista de itens parados (item, valor, dias sem giro, responsável, decisão e prazo) e o roteiro da reunião de 30 minutos. Preencha com as suas taxas, some o que passou de 90 dias e olhe o número. Ele costuma ser maior do que o dono imagina.
Se o seu caixa está preso em mercadoria e ninguém decide o que fazer com ela, a gente organiza com você as regras de compra e a rotina mensal que tiram o encalhe do canto do depósito.
Rafael Saia – Diretor de Processos


