Como fazer um plano de sucessão empresarial se você sair amanhã

Como fazer um plano de sucessão empresarial se você sair amanhã

Só você sabe a senha do banco. Só você tem o telefone do dono da maior conta. Só você autoriza o pagamento grande do dia 5. Se amanhã uma internação tirar você do trabalho por 60 dias, quem assume a empresa?

Para fazer um plano de sucessão empresarial numa empresa de 50 a 300 funcionários, com ou sem filho interessado, dá para começar em poucas semanas com uma folha de papel e quatro colunas.

Se o dono sair amanhã, a resposta quase nunca existe

A Exame publicou em 23 de outubro o estudo do IBGC com a PwC, feito com 279 empresas em 21 estados. Entre as empresas de capital fechado, 72,4% não têm plano de sucessão para cargos-chave. Só 19,6% têm plano para a presidência do conselho. Ou seja: sete em cada dez empresas parecidas com a sua dependem de que nada aconteça com ninguém.

O problema é maior quando o dono é o centro. Ele decide preço, aprova crédito, resolve briga entre gerentes e atende o cliente grande. A Forbes Brasil publicou em 21 de outubro um estudo da McKinsey com 65 empresas familiares brasileiras: só 11% têm iniciativas estruturadas de sucessão, contra 64% na amostra global. A mesma matéria diz que a dependência do fundador pode reduzir o valor do negócio. Na prática, o que você nunca delegou é um risco que o comprador, o banco e a sua família vão enxergar antes de você.

Quem já mexeu em governança em empresa familiar sabe que sucessão é a parte que todo mundo adia.

Como fazer um plano de sucessão empresarial: comece pelo de emergência

O dono costuma misturar dois planos. São coisas diferentes.

O plano de emergência cobre o dia em que você some por 30 a 90 dias, por doença, acidente ou viagem sem sinal. Ele se chama plano de contingência do dono: quem faz o quê, com que acesso, enquanto você não volta. Leva algumas semanas para escrever.

O plano de sucessão responde a outra pergunta: quem conduz a empresa daqui a 3 a 5 anos, e o que essa pessoa precisa aprender até lá. Leva anos, mexe com a família e custa dinheiro de formação.

Nossa posição: faça o de emergência primeiro. Ele é barato, serve de ensaio e já mostra o tamanho da sua dependência. O de sucessão só fica sério depois que você enxergar essa conta.

O modelo de uma página “Se eu parar amanhã”

Pegue uma folha e faça quatro colunas, ou monte direto na calculadora Se eu parar amanhã, que imprime o plano e mostra quanto essa dependência tira do preço da empresa:

  1. O que só eu faço hoje. Decisões, assinaturas, aprovações, relacionamentos.
  2. Quem cobre em 30 dias. Um nome por linha, não um departamento.
  3. O que essa pessoa precisa receber. Acesso, senha, procuração, assinatura, apresentação ao cliente ou ao fornecedor.
  4. Quem é o sucessor de longo prazo e que lacuna ele tem. Com prazo para fechar a lacuna.

Comece pela coluna 1 e seja chato. Passe uma semana anotando tudo o que chega até você. Se uma decisão sobe até o dono mais de duas vezes por mês, ela entra na lista.

Exemplo, hipotético, de uma distribuidora de insumos agrícolas em Goiás com 120 funcionários:

O que só eu faço Quem cobre em 30 dias O que precisa receber Sucessor de longo prazo e lacuna
Aprovar pagamentos acima de R$ 20 mil e falar com o banco Gerente financeira Procuração bancária com limite e segundo token Diretor financeiro de mercado; falta gestão de crédito; 18 meses
Atender os 12 maiores clientes Gerente comercial Visita em dupla com o dono e o histórico das condições combinadas Diretor comercial; não conhece os grandes clientes; 12 meses de visitas
Negociar com o fornecedor principal Gerente de compras Contrato, contatos e limites de desconto O próprio gerente de compras; falta visão de margem; 9 meses

Repare na coluna 3. É ali que o plano costuma morrer: a pessoa foi escolhida, mas ninguém deu a ela a procuração nem apresentou o cliente. Plano sem acesso é só lista de nomes.

Filho, sócio, executivo ou venda: como escolher quem assume sem briga

Ter um filho na empresa não resolve a sucessão. Três perguntas decidem, e vale fazer as três para cada candidato:

  • Ele quer o cargo, ou quer agradar você?
  • Ele está preparado, ou pode ficar em 3 anos se a empresa investir nisso?
  • A equipe e a família vão aceitá-lo?

Converse com cada filho sozinho antes de qualquer reunião de família. Em grupo, ninguém diz “não quero”. A decisão final é do dono, depois de ouvir os sócios e os herdeiros que serão afetados. Herdeiro que não trabalha na empresa opina sobre o que recebe, não sobre quem gere.

Escreva o resultado. O protocolo familiar na empresa é o documento que fixa quem entra, quem trabalha, quem é remunerado e o que acontece quando alguém quer sair.

E se nenhum filho quiser assumir?

Acontece em muita família, e não é fracasso. A Forbes aponta três caminhos além do filho: um executivo profissional, a entrada de um sócio novo ou a venda.

Cada um mexe de um jeito no valor da empresa. Uma conta ilustrativa, com números fictícios:

Imagine uma empresa de R$ 30 milhões de faturamento. Quarenta por cento dos grandes clientes, ou R$ 12 milhões de receita, compram só pelo relacionamento direto do dono. A margem líquida é de 10%, ou R$ 3 milhões de lucro por ano. Num múltiplo de 4 vezes o lucro, a empresa vale R$ 12 milhões.

O comprador olha para os R$ 12 milhões de receita ligados a você e supõe que metade vá embora: R$ 6 milhões de receita, R$ 600 mil de lucro a menos por ano. O lucro cai para R$ 2,4 milhões, e o preço, para R$ 9,6 milhões. São R$ 2,4 milhões de desconto, 20% do valor, só porque os clientes dependem de você.

Quem passou os 12 maiores clientes para a equipe antes da venda negocia essa conta com outra cara. Para estimar o valor com os seus números, veja quanto vale a empresa.

O que precisa estar escrito

Plano na gaveta não obriga ninguém. Três documentos sustentam o plano:

O acordo de sócios com as regras de morte e saída: quem pode comprar a parte, por qual critério de preço e em quanto tempo. O Valor noticiou em 22 de outubro que o STJ decidiu que o espólio pode exercer opção de compra de cotas se o contrato previr, no caso dos herdeiros do fundador da Unip. Se o contrato social não diz nada, quem decide é o inventário.

A procuração e as regras de alçada do plano de emergência, para o seu substituto poder assinar.

O testamento e a estrutura patrimonial. Holding familiar e imposto sobre herança (ITCMD) são assunto de advogado e contador. Chame os dois quando o plano de sucessão já tiver um sucessor definido, não antes.

Dúvidas que o dono costuma ter

Qual a diferença entre plano de carreira e plano de sucessão? Plano de carreira cuida do crescimento de cada pessoa. Plano de sucessão cuida de quem ocupa os cargos que a empresa não pode deixar vagos, a começar pelo seu.

Quais as etapas do planejamento sucessório familiar? Mapear o que o dono faz, montar o plano de emergência, conversar com a família, escolher o caminho (filho, sócio, executivo ou venda), formar o sucessor e registrar tudo em protocolo e acordo de sócios.

Como elaborar um plano de sucessão para PME? Com a folha de quatro colunas acima e um prazo para cada lacuna. Em empresa de 50 a 300 funcionários, uma página bem preenchida vale mais do que um manual de 40.

Quem deve participar da decisão sobre o sucessor? O dono decide, ouvindo sócios e herdeiros envolvidos, com advogado e contador na parte de documentos. Quem vai trabalhar com o sucessor, como o gerente-chave, deve ser consultado.

Cronograma de 12 meses para começar

  • Mês 1: preencher as colunas 1 e 2 e dar procuração e acessos ao substituto.
  • Meses 2 e 3: completar a coluna 3 e apresentar os 12 maiores clientes a quem cobre você.
  • Meses 4 a 6: conversar com cada filho e sócio, um a um, e decidir o caminho.
  • Meses 7 a 9: pôr no papel o protocolo familiar e revisar o acordo de sócios com o advogado.
  • Meses 10 a 12: começar a formação do sucessor, com metas e prazo, e rever o plano inteiro.

Se você já sabe o que só você faz hoje, mas não consegue sentar com a família para decidir quem assume, a gente conduz essa conversa com vocês e transforma o resultado em plano.


Ronaldo Guedes – Diretor de Estratégia

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